Essa data sempre me deixa com um misto de sentimentos. Sempre acordo reflexiva, com uma angústia, um aperto no peito, quase uma saudade .
Uma sensação estranha de força, resiliência e bravura. Sabe aquela sensação de pertencimento misturada com a euforia de uma batalha vencida?
Sou dada a questionar e procurar conhecer para entender ( me entender), fui ao longo da vida juntando as peças desse quebra-cabeças .
Sabendo hoje que o Universo coloca cada pessoa no local e no momento propício para que repare certas atitudes e refaça escolhas com mais sabedoria, vou tentando reagir diferente e honrar , a cada dia, essa minha parte dignamente negra que, com toda certeza, carrego em mim.
Idos de 1980, quando na escola falavam dessa parte da história, sempre me emocionava.
A lei Áurea assinada por uma mulher , uma princesa , quanta ousadia !!
Na adolescência, já questionadora dos costumes, tentava atender os motivos e não sei bem onde ouvi o que foi " por amor" , indaguei cá com meus botões, que estaria explicado , a paixão por um negro a teria encorajado a assinar a tal lei alforriando a todos e não somente " comprando" seu amado , mas libertando todo o seu povo.
Antes de fazer parte da religião de matrizes africanas , a Umbanda, que sim, é brasileira mas sofre influência das origens tanto indígenas quanto africanas.
Eu já me sabia muito influenciada , brincava : " eu nasci branca por acaso, gosto de tudo que é de negro : feijão preto, feijoada, samba, pagode, atabaque, capoeira, berimbau, o cheiro da pele, a cor da pele, os cabelos trançados."
Nada por acaso, aos 12 anos , fui morar em Itu, interior de São Paulo, berço da república e antigo reduto dos barões do café . No museu existe, no hal de entrada, grilhões e instrumentos de tortura da época da escravidão, adivinhem...eu evitava entrar e quando por insistência de alguém, eu entrava, passava mal, o ar me parecia pesado, difícil de respirar.
Em visita à Itupeva, em um restaurante muito conhecido por lá, também me senti mal, peito pesado, respiração difícil, então vim saber que as dependências tinham sido uma antiga Senzala.
Já com mais de 30 anos, tive um sonho revelador, me vi na varanda de uma casa grande, olhos marejados, fitando uma Senzala , com.a mesma sensação de angústia e pertencimento, acordei com uma certeza: não era " frescura" ou somente emoção demais. Eram memórias ancestrais que carrego impregnadas em mim. Parei de tentar entender e resolvi aceitar .
Desde então acolho minha vontade de comer uma boa feijoada toda semana, ouço samba e pagode sempre que posso e tranço meus cabelos , respeito e honro minha ancestralidade.
Hoje, 13 de maio, acredito que realce, foi por AMOR que a princesa assinou aquele papel.
Mas foi por um AMOR maior, Amor de Almas, o Amor de um ser humano que reconhece no outro o seu irmão, um igual, que entende que a cor da pele não diminui a fome, o frio ou a dor .
Fica aqui minha homenagem a esse povo de muito valor.
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